Escolas Psicanalíticas - Sándor Ferenczi



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Sándor Ferenczi (1873-1933), médico psiquiatra e psicanalista húngaro de pais judeus, tinha uma amizade íntima com Freud foi o discípulo favorito e um dos raros amigos, é com E. Jones e K. Abraham, um dos maiores colaboradores para o desenvolvimento da psicanálise fora da Áustria. A originalidade de seu pensamento e o papel que desempenhou no nascimento do movimento psicanalítico húngaro e internacional faz de Sándor Ferenczi uma das figuras mais eminentes e mais originais da psicanálise. Ferenczi logo se mostrou adepto da medicina social. Sempre pronto a ajudar os oprimidos, a escutar os problemas das mulheres e a socorrer os excluídos e marginais, tomou, em 1906, a defesa dos homossexuais em um texto corajoso apresentado à Associação Médica de Budapeste. Atacava os preconceitos reacionários da classe dominante, que tendia a designar aqueles que se chamavam uranianos como degenerados responsáveis pela desordem social.
Partindo de um combate contra o niilismo terapêutico, Freud elaborou uma teoria da neurose e da psicose que superava amplamente os limites da clínica. Sempre consciente de seu próprio gênio e da importância de sua descoberta, sabia dominar seus afetos e mostrar-se implacável para com seus adversários. Acima de tudo, amava a razão, a lógica, as construções doutrinárias. Mais intuitivo mais sensual e mais feminino, Ferenczi procurava na psicanálise os meios de aliviar o sofrimento dos pacientes. Era, pois menos atraído pelas grandes hipóteses genéricas do que pelas questões técnicas. Assim, era mais inventivo que Freud na análise das relações com o outro. Em 1908, descobriu a existência da contratransferência, explicando a seu interlocutor sua tendência em considerar os assuntos do paciente como seus próprios. Dois anos depois, Freud conceitualizou essa noção, fazendo dela um elemento essencial na situação analítica. Entre ambos, portanto, o intercâmbio epistolar teve como função fazer surgir novas problemáticas, que serviam depois para alimentar a doutrina comum.
Em 1909 publicou seu primeiro grande trabalho teórico “Transferência e introjeção”. Nele, introduziu o termo introjeção, que Freud retomaria e aprofundaria. Publicou nessa época vários artigos importantes, entre os quais “Ontogênese dos símbolos”, “Desenvolvimento do sentido das realidades e seus estágios”. Redigiu também uma crítica de “Metamorfoses e símbolos da libido”, de Jung, expondo publicamente sua posição no tocante ao conflito Jung-Freud. Sem ambigüidade, Ferenczi tomou o partido deste último.
Membro do Comitê Secreto a partir de 1913 participou de todas as atividades de direção do movimento freudiano, mas foi nesse período que se desenrolou o grande debate sobre a telepatia, em torno do qual se cristalizaram os conflitos entre Jones, partidário de uma psicanálise racionalista empírica, e Ferenczi, muito mais aberto a experiências julgadas desviantes, irracionais ou extravagantes por seu adversário.
A derrota dos impérios centrais anunciou a insurreição húngara. Em março de 1919, Bela Kun proclamou a República dos Conselhos, enquanto em Budapeste era criada, pela primeira vez no mundo, uma cátedra de ensino da psicanálise na universidade. Ferenczi foi, naturalmente, nomeado para esse posto. Mas, quatro meses depois, a Comuna foi reprimida com sangue pelas tropas do almirante Miklos Horthy.
A partir de 1919, com Rank, Ferenczi se empenhou na reforma completa da técnica psicanalítica. Inventou primeiro a técnica ativa, que consiste em intervir diretamente no tratamento, através de gestos de ternura e afeto, e depois a análise mútua, durante a qual o analisando é convidado a “dirigir” o tratamento ao mesmo tempo em que o terapeuta, antes de reatar com a teoria do trauma, denunciando a hipocrisia da corporação analítica em um texto famoso de 1932, intitulado “Confusão de línguas entre os adultos e a criança”. Através dessa exposição, que suscitou a oposição de Jones e de Freud, relançava todo o debate sobre a teoria da sedução.
Em contrapartida, a exploração psicanalítica do domínio da filogênese deu lugar a uma intensa colaboração entre Freud e Ferenczi. Ferenczi publicou em 1924: “Thalassa: ensaio sobre a teoria da genitalidade”, em que ele tentou traçar um paralelo entre a evolução ontogenética, a evolução da projeção embrionária, ou perigênese. Ele elabora a hipótese, apoiada nas teorias evolucionistas de Lamarck e E. Haecket, segundo a qual a existência intra-uterina seria a repetição de formas anteriores de vida, cuja origem é marinha. O nascimento seria a perda do estado originário, ao qual todos os seres vivos aspiram retornar.
No plano teórico, as pesquisas de Ferenczi objetivam a constituição de uma nova ciência, a bioanálise, que é uma extensão da teoria psicanalítica à área da biologia, ou à psicanálise das origens. Obra próxima da de Rank, sobre o trauma do nascimento. Nos dois textos, desenha-se o abandono da tese da prioridade do pai em prol de uma pesquisa sobre as origens do vínculo arcaico da criança com a mãe, tema trabalhado por Melanie Klein na mesma época. Ao contrário dos kleinianos, Ferenczi se situava no terreno do evolucionismo darwiniano. Afirmava que a vida intra-uterina reproduzia a existência dos organismos primitivos que viviam no oceano.
Segundo ele, o homem teria a nostalgia do seio da mãe, mas também procuraria regredir ao estado fetal nas profundezas através da metáfora da cripta e das profundezas era acompanhada de inovações técnicas. Se a sessão analítica repetia uma seqüência da história individual e se, aliás, a ontogênese recapitulava a filogênese, a reflexão sobre a própria sessão conduzia naturalmente à pergunta: qual o estado traumático que a ontogênese repete simbolicamente?
A fim de evitar que uma parte demasiado grande da energia psíquica encontrasse satisfações substitutivas, o que iria entravar o tratamento, ele propôs uma “técnica ativa”, que proibiria tais satisfações, mas que também poderia incitar a enfrentar as situações patológicas. Diante das dificuldades ligadas a essa técnica, que, amiúde, reforçava as resistências, ele modificou por completo sua técnica, que irá se assemelhar a uma forma de relaxação. Finalmente, chega a conceber uma espécie de análise mútua, destinada a impedir que os desejos inconscientes do analista interfiram no tratamento. Hoje, suas soluções quase não são retomadas, mas suas perguntas constituem a prova de uma consciência aguda de sua responsabilidade terapeuta.
Mas Ferenczi também contribuiu de forma interessante à teoria do simbolismo. Por outro lado, abriu o caminho para uma abordagem mais atenta das relações primárias da mãe com o filho, que iria ser desenvolvida por Alice e Michael Balint.
Ferenczi se interessou, durante toda a vida, por múltiplas formas de pensamento, das mais eruditas às mais irracionais. Freud o chamava o seu “Paladino”, ou seu “Grão-vizir Secreto”. E Ferenczi gostava de se apresentar nos meios analíticos como “um astrólogo da corte”.
Assim, vemos como atuaram, nas relações entre Freud e Ferenczi, todas as contradições do tratamento psicanalítico que leva um sujeito a passar de um estado infantil para a idade adulta, da desrazão para a razão, da onipotência ilusória para a sabedoria, do gozo para o verdadeiro desejo. Mas arriscando-se a que essa perda, longe de ser benéfica e fonte de uma nova paixão, não seja nada mais do que a expressão da vontade normalizadora do analista e, além deste, da sociedade na qual ele vive. De qualquer forma, o episódio dessa confusão familiar e transferencial pode ser compreendido como a matriz de todas as reflexões posteriores sobre o estatuto incerto do tratamento psicanalítico, oscilando sempre entre um excesso de conformismo adaptador, que seria denunciado por Ferenczi e seus partidários, e a ausência de lei, contra a qual reagiriam os herdeiros ortodoxos de Freud.
Duramente contestado por suas teses e suas inovações pelos partidários da ortodoxia, Ferenczi não deixaria o regaço freudiano como Rank. Jones, entretanto, o chamaria de psicótico: “Ferenczi sempre acreditou firmemente na telepatia. Depois, foram os delírios sobre a pretensa hostilidade de Freud. No fim, apareceu uma violenta paranóia, acompanhada até de explosões homicidas. Foi o fim trágico de uma personalidade brilhante...” Na verdade, Ferenczi morreu de uma anemia perniciosa. Freud lhe prestou uma vibrante homenagem, mas enfatizando a excessiva importância que assumira, a seus olhos, o desejo de curar: “Ao voltar de uma temporada de trabalho na América, ele [Ferenczi] pareceu isolar-se cada vez mais em um trabalho solitário [...]. Soubemos que um único problema monopolizava o seu interesse. A necessidade de curar e de ajudar nele se tornara avassaladora”.
Até o fim de sua vida, ele não cessou de tentar elaborar novas técnicas mais eficazes que o tratamento clássico, a fim de proporcionar uma melhor ajuda aos pacientes. Julgava que, com os pacientes difíceis, sobretudo os neuróticos de caráter, eram necessários favorecer momentos regressivos indispensáveis ao trabalho, aceitando entre o analista e paciente um “jogo de perguntas e respostas”.
As experiências técnicas de Ferenczi não foram aceitas por Freud e culminaram na ruptura entre os dois homens em 1933, o próprio ano da morte de Ferenczi.

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Bibliografia:
ROUDINESCO, ELISABETH - Dicionário de Psicanálise, Jorge Zahar Editor, RJ-1997

CHEMAMA, ROLAND - Dicionário de Psicanálise Larousse, Artes Médicas, RS-1995

LAPLANCHE E PONTALIS – Vocabulário da Psicanálise, Martins Fontes, SP-2000
KAUFMANN, PIERRE – Primeiro Grande Dicionário Lacaniano, Jorge Zahar Editor, RJ-1996

NASIO,J.-D- Introdução às Obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto, Lacan, Jorge Zahar Editor, RJ-1997.



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